quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Bugio-ruivo, um grito ameaçado








Fotografias por Vicente da Luz e
Gustavo Fonseca









"A ecologia – muito mais do que os reis, as guerras e os tratados – seria o verdadeiro árbitro da ascensão e da decadência das civilizações ao longo da história. Os reis, as guerras e os tratados são meras consequências."
Jared Diamond, autor do livro – The rise and fall of the third chimpanzee.
Download do livro, em inglês.

Em 28 de novembro de 2009, a equipe do Rastro Selvagem partiu em uma viajem a Camaquã/RS, onde visitou a escola Municipal de Ensino Fundamental Chequer Buchaim Unidade Agropecuária. O objetivo de nossa missão foi encontrar o bugio-ruivo (Alouatta guariba clamitans). Fomos guiados pela bióloga, recém formada, Elisa Brod e a ela devemos todo o sucesso da excursão.
...Ao longo da estrada ouvia-se um estrondo de uma multidão. Era ao mesmo tempo belo e assustador. Foi isso que sentimos no momento do primeiro contato com o bugio-ruivo...
O desmatamento está nos levando a uma maciça fragmentação das florestas. E isso prejudica a biodiversidade de diversas maneiras. Um exemplo que ilustra isso é o bugio-ruivo, um ser arborícola, isto é, vive o ciclo inteiro de vida na copa dás árvores. Desce somente se não chover por muito tempo para beber em córregos, caso contrário, bebe a água que fica acumulada nas bromélias depois das chuvas.
O bugio-ruivo é um animal folívoro e frugívoro (se alimenta de folhas e frutos). Para transformar as folhas em nutrientes é necessário um longo tempo de digestão. Por isso eles passam uma parte do dia comendo e a outra descansando.
Como mencionamos acima, o primeiro contato não foi visual. Ao longe do fragmento onde vivem, ainda na estrada, começamos a ouvi-los vocalizando. A sensação é simplesmente indescritível. Mesmo um único macho soa como uma multidão de homens pré-históricos. Essa fantástica habilidade de vocalizar deve-se a hipertrofia do osso hióide, que funciona como uma caixa amplificadora.
Imaginamos que os primeiros europeus que percorreram estas terras tenham ficado estupefatos ao ouvir o grito dos bugios, e que os primeiros índios tenham ficado gratos, porque encontraram alimento e descobriram que a natureza é divina. Lá é fácil imaginar o passado devido ao excelente estado de conservação da mata. O cheiro de decomposição nos indicava uma alta atividade de troca de energia, além do fato do bugio-ruivo ser uma espécie que requer um local bem preservado para sobreviver.
O macho e a fêmea possuem dimorfismo quanto ao tamanho e dicromatismo sexual (machos bem ruivos e fêmeas mais castanhas). São territorialistas, ocorrendo eventuais disputas entre os bandos.
Até onde se sabe seu papel ecológico é disseminar sementes, através das fezes. Exemplos da dieta: canjerana, figo, folhas de figueira.
Não podemos deixar mais um grito de Gaia cair no silêncio!
Nossos agradecimentos à escola Chequer Buchaim pelo alojamento e pela hospitalidade. E à bióloga Elisa Brod pelos ensinamentos, pela companhia e pelo texto a seguir:

Bugio-ruivo
O bugio tem importância no folclore gaúcho. Eles são conhecidos pelo seu ronco, característica que inspirou a criação do ritmo musical “bugio” na música nativista. Além disso, o bugio é personagem de muitos "causos" e letra de muitas canções.
Este site fala um pouco sobre a cultura gauchesca e o ritmo ronco do bugio.
Alouatta clamitans
Os bugios são animais diurnos e sociais, que vivem em bandos de aproximadamente 3 a 12 indivíduos, com um macho dominante, fêmeas e filhotes.
Seu ronco é facilmente reconhecido, e serve como forma de demarcação de seu território. O bugio alimenta-se principalmente de folhas, além de flores e frutos, desempenhando o papel de “semeador”, pois dispersa as sementes dos frutos ingeridos.
As principais ameaças à espécie são: a fragmentação e a degradação das matas, atropelamentos, ataques por cães, caça e captura para criação como animais de estimação.
Um fato que aconteceu há pouco foi que muitas pessoas acreditavam que os bugios eram os transmissores da febre amarela e por isso estavam matando esses animais. Mas isto não é verdade. O bugio é nosso aliado na luta contra o vírus da febre amarela. Esses animais são muito sensíveis ao vírus e morrem rapidamente, alertando-nos de que o vírus está presente em uma determinada região. Podemos dizer então que os bugios ajudaram a salvar muitas vidas humanas, atuando como sentinelas.
O bugio não transmite febre amarela, pois somente o mosquito é capaz de transmitir o vírus. Ele é uma vítima do vírus, assim como nós. O bugio está ameaçado de extinção em nosso Estado e por isso devemos direcionar esforços para a conservação dessa espécie tão importante para o ambiente e a cultura do povo gaúcho.
Em Porto Alegre existe um grupo de pessoas que trabalha com a preservação dos bugios-ruivos, o Programa Macacos Urbanos. É um grupo que atua na conservação do bugio- ruivo e seu hábitat. Eles fazem algumas ações como: pesquisas sobre a biologia e ecologia do bugio-ruivo; ações de manejo da fauna; ações políticas para a conservação das áreas naturais; projetos educativos, envolvendo as comunidades na conservação da natureza em Porto Alegre.

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